Rodrigo Pimentel, da Bayer, defende a integração entre ESG, diversidade e estratégia empresarial para reduzir riscos, impulsionar a inovação e garantir a continuidade dos negócios. (Foto: LIDE)
O avanço da agenda ESG exige que as empresas ultrapassem os limites de suas próprias operações e assumam um papel ativo na transformação da sociedade e de toda a cadeia de valor. A avaliação é de Rodrigo Pimentel, executivo da Bayer para a América Latina e líder nas áreas de saúde, segurança, meio ambiente, sustentabilidade e excelência operacional, em entrevista a Ivan Lima, head do LIDE Equidade Racial, no Canal Equidade.
Filho de uma professora afro-indígena e de um trabalhador negro da indústria, ambos baianos, Pimentel destacou a influência da família em sua formação pessoal e profissional. Da mãe, Dulce, herdou a paixão pelas pessoas; do pai, Valmir, veio a proximidade com o ambiente industrial, presente nas conversas e experiências que marcaram sua infância em Salvador.
“Essa história, essa base e essa fundação me atravessam de uma maneira muito positiva”, afirmou. Para o executivo, suas origens foram fundamentais não apenas para a construção da carreira, mas também para o propósito de contribuir com a transformação da sociedade.
Formado inicialmente em Química, Pimentel especializou-se em Engenharia Ambiental e de Sustentabilidade, Engenharia de Segurança e gestão empresarial. Ao longo da trajetória, passou por companhias como Heineken, PepsiCo e Nestlé, antes de chegar à Bayer, onde está há quase uma década.
ESG passa a definir a continuidade dos negócios
Na entrevista, Pimentel afirmou que o ESG deixou de estar associado apenas à reputação corporativa e passou a influenciar decisões de investimento, consumo, contratação de talentos e continuidade dos negócios. Para ele, uma empresa preparada para o futuro é aquela capaz de compreender as demandas da sociedade e incorporá-las à própria estratégia.
O executivo explicou que o conceito de ESG ganhou projeção no mercado de capitais como uma ferramenta para avaliar riscos e oportunidades relacionados aos pilares ambiental, social e de governança. Sua aplicação, no entanto, não deve ficar restrita às companhias de capital aberto.
“Eu gosto muito de pensar o ESG como uma sustentabilidade 2.0. Sustentabilidade é a sustentabilidade da organização: como ela segue perene e como olha para sua cadeia de valor do início ao fim”, disse.
Segundo Pimentel, no passado, as organizações concentravam seus esforços em participação de mercado, volume de produção e disponibilidade de produtos ou serviços. Hoje, precisam demonstrar como estão conectadas às necessidades da sociedade, uma vez que consumidores acompanham cada vez mais o propósito das marcas e levam esse posicionamento em consideração ao fazer suas escolhas.
Nesse processo, diversidade e inovação aparecem como elementos diretamente relacionados. “A gente só consegue falar de inovação com pessoas, inclusive com o olhar da diversidade, porque pessoas diversas transformam problemas em soluções”, afirmou.
Para o executivo, empresas que reúnem profissionais com diferentes origens, experiências e perspectivas ampliam sua capacidade de compreender desafios, antecipar transformações e desenvolver respostas mais adequadas ao mercado e à sociedade.
Ivan Lima, head do LIDE Equidade Racial, e Rodrigo Pimentel, da Bayer. (Foto: LIDE)
Estratégia precisa alcançar toda a cadeia de valor
Pimentel também destacou que a atuação empresarial em ESG não pode se limitar aos funcionários, às unidades produtivas ou aos escritórios. A estratégia deve incluir fornecedores, parceiros comerciais, consumidores e as comunidades localizadas no entorno das operações.
Embora os pilares ambiental e de governança já contem com indicadores consolidados — como emissões de carbono, consumo de recursos naturais, eficiência energética, geração de resíduos, transparência e compliance —, o pilar social ainda demanda modelos mais estruturados de acompanhamento.
Entre os temas que precisam ser considerados estão bem-estar, diversidade, equidade, inclusão e desenvolvimento das comunidades. “Uma organização não deve limitar sua intenção de transformação da agenda social apenas da porteira para dentro. Temos a responsabilidade de influenciar, apoiar, encorajar e engajar essa transformação também da porteira para fora”, ressaltou.
Na prática, isso significa estabelecer compromissos compartilhados com fornecedores e desenvolver parceiros para que também adotem iniciativas relacionadas à diversidade, à equidade e à inclusão. O objetivo é criar um efeito multiplicador capaz de levar as práticas ESG a empresas de diferentes portes e setores, independentemente de sua participação no mercado de capitais.
Pimentel defendeu ainda a adoção de métodos e diretrizes que auxiliem as organizações a integrar o ESG aos negócios. Entre as referências citadas durante a entrevista está a ABNT PR 2030, prática recomendada que apresenta orientações para a incorporação dos aspectos ambientais, sociais e de governança à estratégia empresarial.
Na Bayer, segundo o executivo, o trabalho é conduzido por meio de um sistema global de gestão que reúne diretrizes, boas práticas e experiências das operações da companhia em diferentes países. As ações envolvem áreas como sustentabilidade, meio ambiente, saúde, segurança, recursos humanos, transformação e excelência operacional.
“Nós não queremos atender minimamente ao que é legal. Temos o compromisso de transformar a sociedade, a organização, a agricultura e a saúde”, afirmou.
A estratégia está conectada ao propósito global da companhia de promover “saúde para todos e fome para ninguém”. Por atuar nos setores de saúde e agricultura, a Bayer considera a sustentabilidade parte da própria razão de existir, e não apenas uma resposta ao avanço recente da agenda ESG.
Diversidade deve chegar às posições de decisão
A equidade racial também ocupou papel central na conversa. De acordo com Pimentel, a estratégia empresarial precisa considerar as características sociais e demográficas de cada país. No Brasil, onde mais da metade da população se declara preta ou parda, a pauta racial deve receber atenção específica.
Esse olhar, segundo ele, precisa estar associado a outras dimensões da diversidade, como gênero, pessoas com deficiência, comunidade LGBTQIAPN+, gerações e suas diferentes interseccionalidades.
“Como transformamos isso? Atraindo, retendo e desenvolvendo talentos negros, pessoas com deficiência, mulheres, diferentes gerações e integrantes da comunidade LGBTQIAPN+ para que possam ocupar todas as posições, inclusive as de tomada de decisão”, explicou.
A Bayer adota vagas afirmativas destinadas a diferentes grupos minorizados e mantém grupos voluntários de afinidade em vários países. Entre eles está o Bayer Afro, que Pimentel colidera no Brasil e do qual também integra a estrutura global. A iniciativa possui representantes em países como Alemanha, Estados Unidos, Canadá, Irlanda, Reino Unido e África do Sul.
A companhia conta ainda com grupos dedicados à equidade de gênero, à comunidade LGBTQIAPN+, às pessoas com deficiência, às diferentes gerações e a identidades culturais específicas, como as comunidades latina e asiática.
Pimentel ponderou, contudo, que os grupos de afinidade não podem ser considerados os únicos responsáveis pelo avanço da diversidade. Para ele, a transformação deve ser assumida pelas lideranças, pelas áreas de recursos humanos e por todos os profissionais da organização.
Para o executivo, alcançar uma posição de liderança traz também a responsabilidade de ampliar o acesso de outros profissionais historicamente sub-representados. “Quando uma pessoa com algum marcador de diversidade chega a determinada posição, além de ocupá-la, tem o compromisso de transformar. É como deixar a porta aberta para que outras pessoas também passem”, concluiu.
Ao aproximar ESG, excelência operacional, sustentabilidade e equidade racial, a entrevista reforçou que diversidade não deve ser tratada como uma iniciativa isolada, mas como parte da estratégia de inovação, gestão de riscos e crescimento das empresas. Nesse cenário, preparar os negócios para o futuro passa pela capacidade de transformar oportunidades em resultados e garantir que diferentes grupos também participem das decisões.
A terceira temporada do Canal Equidade é realizada pelo LIDE e tem patrocínio da Tour House.
Fonte original: LIDE



