Um olhar sobre o filme The Post – A Guerra Secreta

Um olhar sobre o filme The Post – A Guerra Secreta

27/01/2018 0 Por Angélica Calheiros

A trama do filme The Post – A guerra Secreta mostra, com maestria, o trabalho arriscado, corajoso e intenso do The Washington Post, sobretudo de Katharine Graham (Meryl Streep) and Ben Bradlee (Tom Hanks), para revelar décadas de mentiras contadas pelo governo norte-americano, que escolheu participar da Guerra do Vietnã apesar de saber que jamais sairia dela vitorioso, e pelo então presidente Nixon, que continuou enviando soldados para o campo de batalha, sendo responsável por inúmeras mortes, enquanto participava da propaganda enganosa que garantia que os Estados Unidos tinham motivos de sobra para serem otimistas a respeito do embate.

A história se passa antes do escândalo Watergate – que também foi exposta pelo The Washington Post e, por fim, culminou na renúncia do presidente Nixon, em 1974 – e, além de apresentar minuciosamente as etapas do processo de apuração jornalística, em uma época sem internet e outras inovações tecnológicas que tanto facilitam essa tarefa hoje em dia, também coloca em discussão a relação entre jornalistas e suas fontes, a burocracia, que muitas vezes impede que a imprensa exerça livremente seu papel social, e o choque de interesses que faz parte da rotina diária de jornalistas e proprietários de jornal.

A fonte, Daniel Ellsberg, é exemplo de que a investigação jornalística não deve acontecer apenas de um lado. Movido por culpa e por um senso de justiça que ultrapassa a preocupação com sua própria segurança, Ellsberg encontra e faz cópias de milhares de documentos sigilosos, protegidos pelo Pentágono, que provam que os cidadãos norte-americanos eram vítimas do ego e da falta de responsabilidade do governo. O primeiro jornal que ele procura é o The New York Times, contudo, uma vez que este começa a sofrer perseguição e censura por parte de Nixon, Dan faz com que os mesmos documentos cheguem às mãos de jornalistas do The Washington Post.

Enquanto isso, de um lado está Ben Bradlee, que tenta fazer de tudo para que o The Washington Post deixe de ser visto como um simples periódico local, desejando conseguir os furos grandiosos de grandes jornais e colocar os interesses da população acima dos interesses do governo e dos riscos de ferir a imagem de amigos e conhecidos ou de enfrentar implicações jurídicas. Ele é um jornalista, afinal, não é? Mas, de outro está Graham, que herdou o jornal depois da morte do pai e do marido, e não somente precisa lidar com a dura tarefa de ser uma mulher abruptamente inserida em um ambiente dominado pelo sexo masculino, como também é colocada, repetidamente, em situações nas quais precisa escolher entre apoiar as escolhas dos investidores, que mantêm o The Washington Post funcionando, e de Bradlee, que é guiado por valentia, obstinação e faro jornalístico.

A trajetória de crescimento de Katharine Graham é um dos pontos altos do longa. A mulher insegura e tímida que, no início, precisava fazer anotações e treiná-las em voz alta ao se preparar para uma reunião com investidores, e que sequer era capaz de abrir a boca quando chegada a sua hora de falar, cresce e começa a enxergar o The Washington Post como mais do que um negócio familiar e, finalmente, se assemelha à ousadia que faz parte da personalidade de Bradlee.

É ela quem dá a ordem de publicar a denúncia contra o governo Nixon, colocando a liberdade de imprensa e o compromisso com a verdade acima dos receios dos investidores do jornal e da alta probabilidade de ser condenada e presa – tanto por ter liberado documentos sigilosos para o público quanto por ter usado a mesma fonte do The New York Times. As cenas finais de Graham mostram sua participação ativa na redação, inclusive visitando o local de impressão do jornal e acompanhando o trabalho das máquinas, assumindo-se como jornalista antes de proprietária.

Assim como outras obras de Steven Spielberg, o The Post traz uma característica forte do diretor: apresentar o confronto entre idealismo e pragmatismo através de personagens que têm o dever de defender o que é certo, por mais que forças amplamente maiores tentem fazê-los recuar. É o tipo de filme que mexe com o coração de quem deseja ser ou já é jornalista, trazendo de volta à lembrança que a responsabilidade para com a sociedade, a investigação séria e um quê de rebeldia são pré-requisitos fundamentais para quem exerce a profissão.

Para finalizar, deixo aqui a frase que não só resume a intenção principal do The Post como também deveria fundamentar todo trabalho jornalístico: “a imprensa foi feita para os governados e não para os governantes”.